Justificativa e Notas Metodológicas
JUSTIFICATIVA
A atividade de escrevivências em saúde mental com
trabalhadores da saúde pode ser justificada como um dispositivo de cuidado
coletivo que atua ao mesmo tempo sobre o sofrimento psíquico desses
profissionais e sobre a qualidade e sustentabilidade do SUS.
Saúde mental dos trabalhadores da saúde
Trabalhadores da saúde, especialmente na Atenção Primária e
em territórios marcados por vulnerabilidade social, lidam cotidianamente com
dor, violência, precariedade de recursos, morte evitável e demandas emocionais
intensas, muitas vezes sem espaços estruturados de elaboração. Esse contexto
favorece o adoecimento psíquico (exaustão, burnout, sintomas depressivos e
ansiosos), afastamentos, rotatividade e perda de sentido do trabalho.
A proposta de escrevivências em saúde mental se
inscreve na tradição de dispositivos coletivos de cuidado (como rodas de
partilha no estilo dos Alcoólicos Anônimos), mas acrescenta uma dimensão de
produção de narrativa escrita – crônicas, relatos e textos sobre a experiência
de adoecer, cuidar e sobreviver no trabalho em saúde. Esse gesto de escrever e
partilhar:
-favorece a elaboração simbólica do sofrimento,
transformando experiências silenciadas em palavras, imagens e sentidos
compartilhados;
-fortalece vínculos entre colegas, reduz o isolamento
e a sensação de “fracasso individual”, reposicionando o sofrimento como
fenômeno coletivo e institucional;
-reconhece trabalhadores como sujeitos de história,
não apenas como “recursos humanos”, promovendo autoestima, pertença e
autonomia.
Ao criar um espaço protegido de fala e escrita, a
atividade contribui diretamente para promoção de saúde mental, prevenção de
crises mais graves e ampliação da capacidade de cuidado de si e dos outros
entre profissionais.
Impacto para o SUS
A saúde mental dos trabalhadores é um determinante central
da qualidade, continuidade e humanização do cuidado no SUS. Profissionais
adoecidos, exaustos ou em sofrimento crônico tendem a:
-apresentar maior probabilidade de erros, comunicação
deficiente e conflitos;
-reduzir sua capacidade de acolher, escutar e construir
projetos terapêuticos com usuários;
-afastar-se do serviço, aumentando custos, descontinuidades
e sobrecarga sobre as equipes remanescentes.
Ao formar facilitadores em escrevivências em saúde
mental com trabalhadores da saúde, o SUS:
-qualifica o cuidado: profissionais que conseguem elaborar
seus afetos, limites e experiências tendem a exercer práticas mais éticas,
cuidadosas e cooperativas;
-fortalece redes e equipes: as crônicas e relatos
compartilhados ajudam a construir memória coletiva, identidade de equipe e
sentido político para o trabalho em saúde, o que é fundamental para a Atenção
Primária e para territórios vulnerabilizados;
-previne afastamentos e agravos: o dispositivo atua como
estratégia de promoção e prevenção, abrindo canais de cuidado antes que o
sofrimento se transforme em adoecimento mais grave ou ruptura do vínculo com o
trabalho;
-produz conhecimento sobre o trabalho vivo em ato: as
escrevivências geram material que pode alimentar processos de educação
permanente, supervisão institucional e reflexão sobre organização do trabalho e
condições de cuidado.
Em uma perspectiva ampliada de saúde mental e de saúde
do trabalhador, a atividade se alinha aos princípios de integralidade e
humanização do SUS, reconhecendo que cuidar de quem cuida é condição para a
efetivação do direito à saúde. Ao articular roda de fala e produção de
crônicas, o dispositivo opera na fronteira entre clínica, educação e política,
afirmando o trabalho em saúde como lugar de produção de vida, e não apenas de
adoecimento.
Além do exposto, ressalta-se que a metodologia pode
ser adaptada a outros contextos:
- Atenção Primária
-CAPS
-Hospitais
-ILPI
-CRAS
-Centro POP
- Escolas
-Projetos comunitários
-Plano de implementação
NOTAS METODOLÓGICAS
Para que a formação pudesse atingir trabalhadores da saúde
das diferentes regiões do país, optou-se por dividi-la em várias ofertas, por
região. Nessa primeira, teremos a região Norte contemplada. Para tal, será
utilizada a Plataforma Teams para os 2 encontros síncronos. Em detalhes, as
atividades são apresentadas abaixo.
Primeiro Encontro - Das histórias ao método
Módulo 1 - Boas-vindas; Apresentação
da Todas Juntas; Objetivos da formação; Pactuação do grupo
Módulo 2 - O que são Escrevivências?
- Conceição
Evaristo; Memória; Território; Narrativas; Direito à
memória; Produção de sentidos
Módulo 3 - O papel do facilitador
- Escuta qualificada - Perguntas abertas - Construção de vínculo
- Manejo do silêncio - Acolhimento - Presença - Condução
grupal
Módulo 4 - Ética e responsabilidade
- Sigilo - Consentimento - Direito de não narrar - Autoria
- Uso das narrativas - Publicação - Limites do facilitador
- Fluxos de encaminhamento
Módulo 5 - A metodologia - Todas
Juntas; Planejamento; Organização do grupo; Escolha dos
temas Disparadores; Registro; Escrita; Validação; Devolutiva; Celebração
Apresentação de estudos de caso desenvolvidos pela Todas
Juntas, como o projeto Raízes do Tempo, Crônicas de Marias, Mundo Aflora,
Mulheres raras demonstrando a aplicação da metodologia em contextos reais do
SUS e da comunidade.
Atividade entre encontros
Cada participante realizará uma experiência de escuta
em seu território (ou com uma pessoa de sua escolha), utilizando o roteiro
apresentado durante a formação. A partir dessa experiência, produzirá uma
narrativa breve e registrará suas percepções sobre o processo de escuta, as
dificuldades encontradas, os aspectos facilitadores e os aprendizados
vivenciados. O foco da atividade não será a qualidade literária da escrita, mas
a experiência de conduzir um processo de escuta qualificada.
Segundo Encontro
Da experiência à implementação Abertura Compartilhamento das
experiências realizadas. Discussão coletiva sobre: desafios; aprendizados;
descobertas. Supervisão coletiva Análise das situações vivenciadas pelos
participantes.
Módulo Especial
Entre lágrimas e silêncios: desafios da facilitação.
Discussão de situações reais: quando alguém chora; quando surgem histórias de
violência; quando aparecem lembranças traumáticas; quando alguém monopoliza a
fala; quando o grupo permanece em silêncio; quando alguém não deseja escrever;
quando não autoriza a publicação; quando surgem conflitos entre participantes.
Estratégias de manejo, acolhimento e encaminhamento.
ENCERRAMENTO
Roda de conversa - Cada participante completa a frase:
"A história que desejo ajudar a florescer no meu território é..."
Avaliação
Entrega da narrativa produzida na Atividade Entre Encontros
(por email a ser informado aos matriculados).